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terça-feira, 25 de novembro de 2014

"Materialismo no xadrez funciona?" by: Marcelo Cunha


 Em termos, se você fez um cálculo para obter vantagem material, ou seja, o que você sacrificou valia menos do que você obteve, e o resultado é concreto, a resposta seria sim.
Contudo, caso você não tivesse visto no cálculo prévio em sua mente o inesperado recurso do adversário, a resposta seria um retumbante não!
Simples assim, acabou o "post", ahh ia esquecendo, segue abaixo um exemplo do falado acima:
 
Iremos observar o que ocorreu na partida, jogada na Olimpíada de Tronso (Noruega), entre Kantans contra Illescas Cordoba.
Kantans : Illescas Cordoba

Neste diagrama uma nova pergunta, o que você sugeriria para as brancas? A pergunta é de cunho formal e desafiador, e um alerta para os apressadinhos do pingue. Formal, porque não vou esperar um próximo "post" para divulgar a tal resposta.
 
As brancas, provavelmente imbuídas do sentimento de materialismo, jogaram aqui: 1 Tb8??, e agora o que você jogaria de negras (mesmas observações para a pergunta precedente), 1...Tb8 (claro! ou obscuro...)2 Bc6 (até aqui a felicidade revestida de uma imperceptível amargura ronda o jogador das brancas), 2...Th1!!(ele não contava com a minha astúcia), 3 Rh1 Bd5! -+(o golpe de misericórdia).
 
Marcelo Cunha Guimarães

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Perdi e daí? (...) Fui massacrado e daí (...) : By Marcelo Cunha

Marcelo Cunha (ELO 2209)
 escritor e integrante da equipe Xadrez Arte
Há três, e somente 3, resultados possíveis numa partida de xadrez, ei-los: 1 - 0 (vitória), 0 - 1 (derrota) e 1/2 - 1/2 empate, sem falar nos casos excepcionais, para não dar aqui aqui um tom de verdade absoluta/peremptória, tais como resultados advindos de "bye" ausente ou anulação de partida, ressalto aqui que não tenho muita certeza a respeito desses casos excepcionais e se eles existem mesmo (!) pois requer conhecimento abalizado de arbitragem.
Pois bem, voltando aos resultados corriqueiros do "chess", vitória, derrota e empate, o que dizer então da vitória que vale 5, 10 ou mais pontos, derrota que vale -5, -10 ou menos pontos, e empate que vale 5, 10 ou mais pontos?
A respeito da vitória inflacionada, é possível ser consequência do ego, ou daquele adversário que tava engasgado, ou de um êxito de alguma abertura supervalorizada pelo contricante vencedor. Esses pontos permeiam a área sob a ótica da psicologia, creio eu, e despendem energia, esforço e concentração, desviando ambos os jogadores do real objetivo da partida de xadrez, ou fazendo com que a concentração não seja plena para o que está ocorrendo no tabuleiro (peças brancas contra peças pretas).
Falemos então da derrota "deflacionada", por que ocorre esse fenômeno? Vão aqui algumas considerações: seria o efeito inverso da psicologia, que de fato, foi irradiada pelo jogador que queria massacrar o ego do coitado do outro jogador, que não teve meios de se defender dos ataques extra-tabuleiro, pode acontecer também por culpa do jogador perdedor e um dos comentários comuns seria: como é que perco para aquele cara? puxa, eu tava ganho, e perdi? como é que fui massacrado nessa minha adorável abertura Polonesa (nome hipotético).
No tocante ao empate que vale mais de 1/2 ponto, ocorre, à vezes, quando um jogador empata com outro supostamente mais forte, surgindo possíveis comentários não só do jogador supostamente mais fraco como também da platéia que esperava ávida pelo resultado da partida, tais como: pelo menos empatei, já que meu adversário tinha obrigação de ganhar (e aqui eu lanço a pergunta, tinha mesmo?), como é que "tu perde" para aquele cara?
Após esses breves comentários, finalizo aqui dizendo que é possível amainar esses efeitos nocivos acima citados com o estudo contumaz dos finais, meio jogo, e como já disse repetidas vezes: com o treino de cálculo.
Segue aqui uma posição interessante que não guarda relação com o texto acima, o intuito é só aguçar a visão tática:

Magnus Carlsen x Vladimirov - Dubai Open 2004
Essa posição é oriunda da partida entre o atual campeão mundial Magnus Carlsen e Vladimirov - Dubai Open 2004.
Vladimirov poderia ter optado pela tentadora jogada (aqui não citarei o curso normal da partida) 1...Bc6, talvez tenha previsto a preparação prévia excepcional do Carlsen, 2 De2 Bh1, 3 Ce6 De7, 4 Bf5!!, vejam que posição fantástica, lembrando posições compostas (treinem finais artísticos e problemas compostos!), as negras não tem como evitar Td8 seguido de  Cc7! mate (e que mate estarrecedor), a menos que queiram perdas materiais irreparáveis.
Marcelo Cunha Guimarães

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Reflexão com Inflexão - Por: Marcelo Cunha

Ah que legal o Houdini achou uma variante boa numa posição que perdi; Eita que variante arrasadora (com sacrifício de dama) o Fritz achou e eu perdi esta partida; Vou me preparar para a partida com o Vasilievitch (são 11:30 da manhã de um dia x, a próxima partida será às 14:30 deste mesmo dia!), mas ele (o cara) confia no Fritz que tava dando 2,63 de vantagem pro "cara - ele é oooo caaaara" numa linha de uma variante que o dito cujo (Vasilievitch) gosta, e isso e aquilo, e mais e mais histórias...

Já disse reiteradas vezes que o treino de cálculo é necessário para progredir no jogo de xadrez, mas depender do computador para aprender a calcular, ou aprender a calcular através das variantes certeiras (nem sempre) e frias do computador é o caminho para melhorar no xadrez?
Ok, com tanto avanço (PCs -é o novo! - potentes, notebooks, ultrabooks, tabletes, HDs 500 de Gigas, 1 Tera...) será que passar uma partida comentada, com análises humanas (os livros clássicos são pródigos neste mister) seria um modo passivo e improdutivo de estudar xadrez? E ainda, ler um texto dos citados livros clássicos explicando determinado tema, digamos um texto um pouco denso que requer um pouco de paciência e prática de leitura para sua compreensão não seria uma fonte de alimento para idéias abstratas que podem iluminar o campo intuitivo na hora da partida de xadrez?
Bob Fischer
Vale lembrar tal como fez Bobby Fischer, o jogador de xadrez pode expandir seus conhecimentos, aprender outros idiomas para ler livros em línguas alienígenas ( a língua inglesa seria a mais comum).
Voltando ao Fischer, ele teve (ou se viu na necessidade ou se viu imerso na compulsão de aprender mais e mais o xadrez, ou até por questões geopolíticas!) que aprender a língua Russa para ler  a extensa e prolífica litetura Russa a respeito do xadrez.
Os computadores podem auxiliar e muito o jogador de xadrez, principalmente no manejo de base de dados gigantes, filtro de partidas, variantes, finais, etc, e claro, auxiliam, sim, os grandes mestres nas complexas variantes calculadas ou dadas pelas potentes parafernálias cibernéticas do mundo moderno.
Os grandes mestres, principalmente os de calibre acima de 2750 tem um conhecimento estratosférico da arte de Caíssa, mas descendo para o mundo dos mortais, poderia-se afirmar que o uso consistente de computador pode incitar algum vício nos "chess players", e nesse ponto os livros fazem uma diferença fundamental, pois com a leitura dos mesmos vai se construindo uma lenta teia de conhecimentos e idéias que podem ser úteis na hora das partidas.
Alexander Chernin
Vejamos o que o melhor (ou um dos) treinador de xadrez do mundo, Alexander Chernin, diz sobre o tema: "Eu não digo nada novo, mas repito o que já se tornou um clichê, algo como: "fumar faz mal para sua saúde. Computadores tem indubitalvelmente algo de positivo, principalmente na pesquisa rápida de partidas e suas correlações bem como nas bases de dados, mas as análises de programas de xadrez tem seu lado negativo. O meu sistema de treinamento (do Chernin) consiste em conduzir os jogadores a ser resistentes às influências negativas dos computadorese e ajudá-los a desenvolver habilidades de análise. 
Vejamos mais um comentário do Chernin: "O meu treinamento consiste, também, de duas partes principais focadas no jogo e manobra posicionais e no cálculo. Como fundamento, eu uso as idéias dos livros do Botvinnik e do Yuri Razuvaev - famoso teórico e treinador, com o qual, ao longo de vários anos, troquei conhecimentos sobre treinamento de xadrez. Assimilei idéias metodológicas de ambos os mestres. Para cálculo em meio jogo e finais de partidas eu confio nos métodos do Dvoretsky, o qual foi meu treinador. De fato, na minha formação de enxadrista, ele foi o único treinador que tive. Infelizmente, eu tinha 22 anos quando comecei a treinar com ele, idade essa que já é tarde para os padrões de treinamento do xadrez. Eu também saquei idéias dos livros de famosos enxadristas de onde selecionei material útil e também da prática do xadrez - de Steinitz a Carlsen. Grande parte do meu trabalho adveio dos últimos livros do Kasparov. Todo esse material/método representa o espectro do meu sistema, incorporado nas minhas leituras e exercícios. Sem espaço para falar tudo aqui, mas meu livro "Pirc Alert contém explanações mais detalhadas a respeito de minha metodologia (Pirc Alert, co-autor Lev Alburt, 2001)". 
A respeito dos livros, não só os de xadrez, eles são fontes fantásticas para o aprimoramente humano, e fontes inesgotáveis de idéias abstratas, e ainda mais, a prática da leitura melhora a paciência, a ansiedade, desenvolve a disciplina, joga luz em questões obscuras guiando o leitor para o caminho de uma possível solução ou para outro caminho, desperta a imaginação e por fim, além de tantas outras qualidades/características dos livros/leitura o leitor é livre para escolher qual livro consultar/ler,  qual livro comprar, qual biblioteca visitar (propositalmente evitei adicionar: "procurar no google", ainda que seja altamente comum nesses dias")... 
Para concluir vejamos pequeno texto com análises, cuja fonte é o livro do Yuri Averback, Comprehensive Chess Endings - Bishop Against Knight Endings, Rook Against Minor Piece endings, Volume 2:
I. Peões dobrados (finais de bispo e peões contra cavalo)

Com peões dobrados as chances de ganho são significativamente reduzidas. Se o rei defensor puder alçançar uma casa em frente aos peões que seja inacessível para o bispo, então, como nos finais com um peão, o empate é óbvio, no caso, é importante que o cavalo não esteja imobilizado ou dominado pelo bispo ou rei adversários.
De grande interesse são as posições nas quais as peças do lado mais fraco bloqueiam o peão mais avançado numa casa de outra cor do bispo oponente.
É salutar notar/perceber, em comparação aos finais com 01 peão, que o segundo peão dobrado ( o que está atrás do mais avançado), incrementa as chances de ganho, uma vez que priva o cavalo de saltar em importantes casas. O diagrama a seguir é um exemplo típico:

1 Re7, Cb8, 2 Ba7 Cc6 (2...Cd7, 3 d4), 3 Re8 Ce5, 4 d4! Cd7, 5 Re7, e as pretas estão em zugzwang, de todo o modo, seria apressado concluir que sempre o ganho com peões dobrados será possível quando o lado mais fraco estiver em zugzwang, vejamos então o próximo diagrama movendo o diagrama anterior para o lado esquerdo do tabuleiro, aqui eu acrescento que cada palavra, cada frase do autor é (ou contém) um ensinamento inestimável

Porque é empate? O leitor supreso deve (ou deveria) perguntar isso. Aqui as pretas ficam realmente em zugzwang mas a posição é empatada, e resultará somente no afogamento do rei!
1 Rd7 Ca8, 2 Bb5 Cb6, 3 Rd8 Ca8, 4 c4 Cc7, 5 Rd7 Ca8, 6 Ba6 Cb6, 7 Rd8 Ca8, 8 Bb7 Cc7! (8...Cb6, 9 c7! Rb7, 10 c5 Cc8, 11 c6 e as brancas ganham) 9 Rd7 Ra7!!, agora 10 Rc7 leva imediatamente ao afogamento (stalemate em inglês) enquanto que contra 10 Ba8 ou 10 Ba6 as pretas não(!) devem tomar o bispo e sim jogar 10...Rb8, as brancas também não conseguem nada com 10 Rc8 Rb6, 11 Rb8 (11c5 Ra7) Ce8, 12 Ba8 Rc5, 13 Rc8 Cd6, 14 Rd7 Cc4, 15 c7 Cb6, 16 Re6 Cc8 com empate. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pedro Neto X Marcelo Cunha, 6ª rodada CCXR UECE

Caros(as) leitores(as), tragos-lhes algumas análises de minha partida (eu de negras) contra o forte e experiente Pedro Neto, jogada no último torneio rápido na UECE. Numa partida de 21 minutos não há tempo para se aprofundar na posição, por isso os contendores tem que estar com o cálculo bem treinado (repita-se esta frase várias vezes!). Vejamos a partida:

Interessante observar o que diz o autor do livro "Starting Out: Modern Benoni, Endre VEGH, "Esta variante é a preferida de jogadores posicionais, os quais acreditam que podem dominar o oponente estrategicamente. Incluem-se  jogadores como Korchnoi e Nikolic, que jogam bastante este sistema com grande confidência. Entretanto, os lances calmos das brancas dão às negras tempo para se desenvolver, enquanto que o bispo de g2, de fato, não  dá suporte ao avanço e4-e5, que é um dos principais cuidados que as pretas devem ter. As pretas tem mais de um caminho para obterem um jogo satisfatório".

Pedro Neto x Marcelo Cunha

1 d4 Cf6, 2 c4 c5, 3 d5 g6, 4 g3 Bg7, 5 Bg2  d6, 6 Cf3 0-0, 7 0-0 e6, 8 Cc3 ed5, 9 cd5 Te8 (os principais são cbd7 e a6), 10 Cd2 Cbd7, 11 e4 Ce5, 12 Dc2 a6, 13 a4 Tb8, 14 a5 b5 (a Benoni é uma defesa ativa, mas aqui era mais prudente seguir o principio basilar de desenvolvimento das peças, era interesante jogar Bd7 com idéia de Bb5. eu pensei nesta possibilidade na partida, mas só isso já foi o suficiente para consumir bastante tempo!), 15 f4 (será que não seria melhor optar pela prudência e jogar h3 como em muitas partidas em posições similares nesta linha?) Ceg4, 16 Cc4 Tb4 (vejam que as negras, seguindo os dogmas da abertura,também mergulham nos riscos, ao jogarem b5, elas cedem a escaque a5 para o cavalo branco mirando a casa c6) 17 Dd3 (aqui era para se pensar como lances candidatos tanto Ca3 como Ca5) Ch5!?, 18 Ce2 f5!, 19 Bd2 fe4, 20 Be4 Te4! (a Benoni é uma defesa ativa, vejam que po sição curiosa,as brancas são forçadas a tomar a torre de b4), 21 Bb4 Bf5!, 22 Ba5 De7, 23 Tae1 (aparentemente as brancas se defenderam bem, mas aqui inicia-se uma combinação brilhante, ressalto que foi o Fritz que viu, mas digo e repito, com um trabalho de cálculo apurado é possível arrematar esta posição numa partida pensada) Bd4?? (este lance merece mais interrogações, eu não tinha mais tempo, aqui fiquei completamente perdido após) 24 Cd4! Te1, 25 Cf5 gf5 e as pretas abandonaram. Voltemos agora ao lance 23 das pretas, por que não sacificar a segunda qualidade e assaltar o rei branco!: 23...Tc4!!, 24 Dc4 De3, 25 Rg2 (única) Bd3!! (este intermediário é difícil de ver num cálculo prévio), 26 Dc1 (se 26 Da4 Be2 seria suficiente) Be4!, 27 Rh3 Df2!! (vejam que posição brilhante, vocês podem ver isso, basta treinar, treinar e treinar!, quando estiverem cansados treinem novamente!), 28 Tf2 Cf2, 29 Rh4 Bf6 mate!.

Marcelo Cunha Guimarães